Revista | Vol 6, N. 1, Junho 2015

O modelo tectónica da mente entre a pulsão e o objecto

O que distingue os modelos pulsionais dos modelos de relação de objecto tem sido, desde há muito, um ponto de discussão acesa na história da Psicanálise. A partir dessa distinção se têm posicionado os vários autores com as suas teorias, a priori já associadas a um dos modelos, ou, outras vezes, tentando integrar as duas perspectivas. 

Depois de Freud, a teoria das Pulsões foi sistematicamente criticada por negligenciar o papel do objecto externo na constituição do psiquismo, valorizando a meta da descarga da excitação associada à ideia de trauma por excesso pulsional, onde o objecto é sobretudo o objecto da pulsão. Por outro lado, a focalização da teoria freudiana no estudo das neuroses, associado ao conflito pulsional edipiano em detrimento de outras patologias como as psicoses, perturbações borderline ou até mesmo a depressão, deixa em aberto o estudo do domínio pré-edipiano, que a psicanálise pós-freudiana tenta complementar através da investigação das experiências precoces e da sua relação com as patologias mais graves, não-neuróticas, antes consideradas inanalisáveis, mudando o foco das questões triangulares do conflito sexual para as questões diádicas de separação e individuação. Esse novo olhar, tenta apreender a qualidade relacional do par mãe-criança e o seu impacto no desenvolvimento, tendo como organizador conceptual essa relação precoce mãe-bebé. 

Teorias como a das relações de objecto, da Psicologia do Self ou da corrente interpessoal americana desenvolveram esse vértice objectal, desvalorizando o aspecto intrapsíquico do sujeito, do mesmo modo que Freud havia desvalorizado o objecto, na compreensão do psiquismo, mas isso não significa, do meu ponto de vista, que haja incompatibilidade entre a perspectiva pulsional e a relacional. 

Autores como Bion, Antonino Ferro e Green, entre muitos outros, parecem poder retomar o pensamento de Freud, na sua focalização intrapsíquica pulsional, ao mesmo tempo que valorizam a intersubjectividade relacional, assumindo a pulsão e o objecto uma relação de co-determinação (Green, 2003). 

Para Green (2008), o intersubjectivo enfatizado pelas teorias relacionais e o intrapsíquico valorizado pela teoria das pulsões complementam-se na compreensão do fenómeno global que é a “causalidade psíquica”, que nasce da articulação entre ambos (Green, 2002). Ainda de acordo com Green (1995), a pulsão não é psíquica na sua fonte, mas apenas se torna psíquica no encontro com o objecto, que assim revela a pulsão formando um par inseparável, importando fundamentalmente compreender a sua dinâmica. 

Apesar de sobrevalorizar o polo pulsional face ao objectal, talvez tentando enfatizar o que pensava trazer de novo e original, Freud não deixa de referir o objecto como parte integrante do funcionamento mental desde o início da sua obra, designadamente através dos conceitos de representação mental do objecto, de identificação ou de Eros e sua articulação com as relações entre o Eu e o Objecto. 

De igual modo, os autores que enfatizam o polo objectal, atribuem, em geral, um lugar considerável ao papel da parte instintiva no desenvolvimento psicológico do sujeito. São exemplo disso, entre muitos outros, Kohut e Blatt, que, apesar de se identificarem claramente com as teorias de vinculação objectal, não deixam de, tal como Freud, contribuir para uma visão gobal em que se podem complementar harmoniosamente as perspectivas pulsional e objectal. 

Penso mesmo que podemos considerar o pensamento de Blatt como uma proposta inovadora baseada na integração dos principais conceitos de Freud e Kohut, numa perspectiva desenvolvimentista. 

Foi daí que surgiu, através da analogia entre a Terra e o self, por mim anteriormente ilustrada pelo modelo tectónico, a dinamização daqueles conceitos e a integração dos modelos pulsional, focado na fonte que gera o desenvolvimento, e relacional, que sublinha as relações objectais como determinantes para esse mesmo desenvolvimento. 

A teoria Freudiana considera que o desenvolvimento se dá através de etapas psicossexuais, associadas à zona erógena dominante. Acontecimentos disruptivos ao longo do desenvolvimento podem determinar a fixação da líbido numa dessas fases, determinando pontos nodais de regressão nos desenvolvimentos patológicos, geralmente decorrentes de conflitos entre o Ego e as tendências sexuais incompatíveis com as suas exigências éticas, associados a vivências edipianas. 

Freud (1923) afirma que o Ego recalca essas tendências discordantes, regredindo a fases de desenvolvimento e a posições objectais anteriores onde se encontravam fixações infantis que acedem à consciência, pela urgência de se expressarem, originando o sintoma (satisfação sexual substitutiva). 

Aquela ameaça à dominância do princípio do prazer poderá provocar uma espécie de desligamento preventivo, através da pulsão homeostática Tanatos, com o consequente corte da cadeia associativa, impedindo a representação ou separando-a do afecto. A regressão funciona assim como uma tentativa de religar o sistema, através de Eros, pulsão de vida, fusionada com Tanatos, de modo a fazer entrar novamente na cadeia associativa da representação, ainda que deslocado, o conteúdo proibido. 

A forma mais elevada de operar esse religamento ou satisfação sexual substitutiva é, segundo Freud, através da sublimação. Em “Totem e Tabu”, Freud (1913) considera que a sublimação não obriga ao recalcamento, ao contrário de outras formações sintomáticas. Por outro lado, afirma que o processo de sublimação está directamente ligado à pulsão e ao self idealizado através do ideal do eu (1914) e que a sublimação implica a suspensão do recalcamento e já não a dessexualização da pulsão, mas antes a criação de um novo objecto de investimento, esse sim dessexualizado (1915). 

Por seu lado, Kohut, considera que os seres humanos precisam de afecto, empatia e comunicação desde o princípio de vida, sublinhando a importância fundamental do objecto nesse período inicial. Através do seu conceito de optimal frustration (Kohut, 1984) assinala a área de tolerância às falhas ocasionais dos pais nas funções empáticas de amar e admirar. Define-o como decepções toleráveis, que permitirão o estabelecimento de estruturas internas que facilitarão a transição progressiva do sentimento de self grandioso para o de auto-estima e confiança. Incidentes disruptivos, acima daquele nível de tolerância obrigariam a criança a recorrer a estruturas defensivas compensatórias desadequadas ou inadaptadas, disrupção essa comparável ao conceito freudiano de trauma (Kohut, 1977). 

De acordo com este autor (Kohut, 1985), a gravidade da patologia dependerá do período de desenvolvimento em que se dá o incidente disruptivo; se acontecer no período pré-edipiano inicial, haverá uma disrupção severa na capacidade da mente se expandir e restaurar o narcisismo; no período pré‐edipiano tardio haverá uma tendência sexualizante que surgirá como mecanismo de compensação para as necessidades narcísicas insatisfeitas; e se ocorrer no período edipiano haverá lugar a estratégias compensatórias de procura constante de aprovação e admiração dos outros, bem como a constante procura de objectos a idealizar.
Kohut (1984) começou por considerar a existência de um arco de tensão, de desenvolvimento do self entre um eixo de grandiosidade e outro de idealização, aos quais acrescentou, mais tarde, um terceiro eixo o do self gemelar (necessidade de ligação ao alter-ego), cujo desenvolvimento originaria, através da internalização, a construção das ambições, dos ideais normais e da área intermediária dos talentos e habilidades, respectivamente. Aparentemente inspirado por Kohut, Sidney Blatt (1990, Blatt & Shichman, 1983) vem propôr que o desenvolvimento da personalidade implica uma interacção entre dois eixos ou processos fundamentais: o eixo de auto-definição e o eixo do relacionamento.
As tarefas que delimitam essas linhas desenvolvimento são para o eixo do relacionamento o estabelecimento de relações interpessoais cada vez mais maduras, recíprocas, mutuamente satisfatórias, estáveis e duradouras, e para o eixo de auto-definição o estabelecimento de uma identidade ou de um sentido do self como consolidado, diferenciado, realista, essencialmente positivo, estável e cada vez mais integrado. Na parte final do desenvolvimento, diferentes aspectos destas duas linhas fundamentais seriam integrados num sentido de self na relação. 

De acordo com o autor (Blatt 1990; 1995; Blatt & Shichman, 1983), embora idealmente essa integração devesse ser equilibrada, poderá ser posto uma ênfase maior numa das duas linhas de desenvolvimento por pessoas saudáveis, definindo assim duas configurações básicas de personalidade, anaclítica e introjectiva, que apresentam modos particulares de cognição, diferentes estilos de relação e diferentes mecanismos defensivos. 

A configuração anaclítica será sobretudo orientada para o objecto, focando-se preferencialmente em afectos, aspectos sintécticos e integrativos do todo, com pensamento mais intuitivo e sentimental na procura da confiança e bem‐estar nas relações, sendo essas pessoas tendencialmente dependentes do campo. Valorizam a intimidade, sendo o seu modo instintivo principal o libidinal. Recorrem sobretudo a mecanismos defensivos de tipo evitante (recalcamento e negação, por exemplo). 

Ao contrário, a configuração introjectiva colocará a ênfase na análise e na exploração crítica dos detalhes e das partes, através de um pensamento literal, sequencial e crítico, valorizando as acções, a conduta, a lógica, a consistência e a causalidade, tendendo os indivíduos a ser independentes de campo. Objectivam a assertividade e o prestígio, bem como o controlo e o poder. O seu modo instintivo principal envolve a agressividade e a assertividade ao serviço da auto-definição e o desejo básico é ser reconhecido e admirado, podendo apresentar tendência para o isolamento social e para serem excessivamente críticos em relação a si e aos outros, usando preferencialmente mecanismos de defesa de tipo neutralizante (projecção, intelectualização, formação reactiva, sobrevalorização ou isolamento do afecto, por exemplo). 

Blatt (1991, 1995) acredita que o desenvolvimento da personalidade se processa e organiza através de Esquemas Cognitivo-afectivos, que se desenvolvem à medida da maturação psicológica pela acomodação e integração das novas experiências. Nesse sentido Blatt & Blass (1990, 1992, 1996) reformulam o modelo de Erikson, acrescentando-lhe um novo estádio, associando seis dos nove estádios à linha de auto-definição/ separação e os restantes três à do relacionamento/vinculação. 

Ainda segundo Blatt (1990, 1991, 1995, Blatt & Shichman, 1983) experiências traumáticas acumuladas, como perturbações das relações da criança com as figuras significativas, em associação com predisposições biológicas, poderão levar o indivíduo a desenvolver sintomas psicopatológicos, consideradas manobras ou tentativas compensatórias e distorções do desenvolvimento normal. Essas formas psicopatológicas podem ocorrer em vários níveis de desenvolvimento, sendo tanto mais graves quanto mais precoce tiver sido a situação disruptiva e adquirir características diferenciadas consoante o posicionamento relativo no contínuo auto‐definição/relacionamento. 

Um modelo do desenvolvimento normal e psicopatológico 

Como Freud, também Blatt (2008) considera a sublimação um dos mecanismos defensivos mais maduros e um exemplo de elevado desenvolvimento e integração das duas linhas de desenvolvimento, produzindo uma resposta socialmente ajustada (dimensão anaclítica) e satisfatória para o próprio (dimensão introjectiva). 

Na minha perspectiva, o pensamento de Blatt respeita tanto a dimensão intrapsíquica, retomando os conceitos freudianos, como a intersubjectiva, herdeira da teoria das relações de objecto e da vinculação. 

Convido-os agora a uma viagem espacial onde poderão olhar o dinamismo da Terra (polo pulsional) em relação com o inseparável Universo (polo objectal), exemplificando a minha leitura integrativa das ideias expostas. 

Girando à volta do sol e à volta de si própria, transformando-se lenta e harmoniosamente, a Terra desvela como se pode conceber o desenvolvimento da personalidade nessa articulação contínua dos polos pulsional e objectal. 

No movimento de rotação, linha da auto-definição ou da separação, o sujeito gira à volta de si próprio, constituindo o lugar onde olha para dentro de si (dimensão introjectiva da personalidade) e onde se desenvolve ou adoece o seu narcisismo, consoante a experiência relacional da translacção. 

No movimento de translacção, linha do relacionamento ou da vinculação, o eixo é desenvolvido à volta do sol, matriz relacional, intensidade do afecto, através de um objecto único (sol) numa fase inicial de desenvolvimento, que progressivamente dará lugar a uma cada vez mais complexa multiplicidade de relações que vão ocupando o espaço desenhado por tal eixo. 

O sistema solar representaria assim a área conhecida, em crescente desenvolvimento e o resto do universo representaria o desconhecido. 

Aquilo que cada indivíduo é, no campo observável, seria representado pela costa terrestre, num dinamismo contínuo entre o seu interior – manto e núcleo – e a realidade exterior – atmosfera e sistema solar. Tal como a crosta em constante renovação pela influência dos ciclos tectónicos, do vulcanismo, da erosão e sedimentação, a mente e a personalidade humana, através de dinamismo equivalente, se desenvolveria e transformaria, num movimento expansivo de equilibração, ora mais voltada para os outros, com expressão máxima nas elevações montanhosas da crosta, ora com maior retraimento narcísico, nas depressões protegidas pelo oceano. 

A anatomia da mente humana seria assim comparável à da Terra, distribuída por diferentes camadas de profundidade, desde a crosta, fronteira de contacto com a realidade externa até ao âmago da sua interioridade. 

Recordando o modelo freudiano do Iceberg, a crosta terrestre representaria o Superego, a Litosfera corresponderia ao Ego e a Astenosfera, o manto inferior e o núcleo ao ID. O dinamismo tectónico movimentaria Ego e Superego entre a superfície e o interior, conferindo-lhes a plasticidade de poderem funcionar aos três níveis de profundidade – consciência, pré-consciente e inconsciente –, enquanto o ID se manteria sempre ao nível inconsciente, aumentando a inacessibilidade com a profundidade. 

Dessa dinâmica resultaria que as características da personalidade corresponderiam às combinações minerais e texturas assumidas pelas rochas terrestres, determinadas pelo ciclo das rochas, nas transformações que sofrem ao longo do tempo geológico. 

Dessa dinâmica resultaria que as características da personalidade corresponderiam às combinações minerais e texturas assumidas pelas rochas terrestres, determinadas pelo ciclo das rochas, nas transformações que sofrem ao longo do tempo geológico. 

No caso das rochas, existem três tipos de rochas: sedimentares, metamórficas e ígneas ou magmáticas, que se vão transformado na medida em que se alteram as suas condições de equilíbrio. 

O modelo téctónico da mente entre a pulsão e o objecto.

o modelo tectonico da mente entre a pulsão e o objecto

Quanto ao ciclo de vida humano também se poderia considerar três tipos de configurações, as da linha anaclítica (rochas sedimentares) e as da linha introjectiva (rochas ígneas), às quais penso fazer sentido acrescentar as da linha mista self/objecto (rochas metamórficas). 

Essas transformações progressivas, determinadas pelas interacções com o objecto/realidade externa, também poderiam ser representados por esta analogia entre o self e o nosso planeta, através da dinâmica tectónica e das suas zonas divergentes ou assimilativas e convergentes ou de subducção e os seus movimentos de expansão e retraimento, envolvendo as pulsões Eros e Tanatos presentes nas correntes de convecção. 

A superfície da crosta continental representaria o lugar do sujeito inter-relacional, em relação com os outros e com a cultura (sistema solar), enquanto na crosta oceânica estaria mais em relação consigo próprio. As zonas divergentes remeteriam para a confrontação do self com o ambiente/ objecto, pondo em acção as pulsões imbrincadas. As experiências novas com a realidade, fenómeno divergente de crescimento fortemente investido por Eros, fariam disparar o sinal de perigo, decorrente do conflito e eventual sofrimento associado, entre o modo antigo e o modo novo em integração, formando uma fossa que activaria medidas protectoras desse estado conflitivo intolerável. O alarme accionaria as células de convecção que libertariam a pulsão homeostática Tanatos, que se reforçaria na fusão com Eros, afundando a parte da placa que menos se adaptasse à situação. 

  

Para tornar a dor tolerável, é necessário, naquele momento afundar, pelos mecanismos defensivos e compensatórios disponíveis e automáticos, a parte inaceitável. De acordo com a qualidade do superego, pressão interna, configuração do self e intensidade do choque haveria duas formas principais de processar o fenómeno: pela dessexualização da pulsão, separando a representação do afecto, mantendo aquela consciente, pelo recurso ao recalcamento e defesas dele derivadas, ou, sem dessexualização, quando o sujeito é obrigado a empurrar toda a experiência e suas representações para o escuro interno, como blocos rochosos de brutal coesão e dureza. No primeiro caso falaríamos de mecanismos como recalcamento, negação ou humor e no segundo caso de dissociação, projecção, denegação, fantasia, clivagem ou somatização. 

Quando as experiências relacionais são adequadas à idade e capacidade de acomodação da criança (Blatt), dentro do nível da optimal frustation (Kohut) ou de estímulos adequados à filtragem do escudo protector (Freud), originarão estilos relacionais e defensivos próprios, com algum desvio do curso desenvolvimental normal, mas sem patologia grave associada. 

Como Freud, Kohut e Blatt, considero que experiências traumáticas episódicas ou acumuladas, como por exemplo, perturbações disruptivas das relações da criança com as figuras significativas, bem como as dificuldades adaptativas deles decorrentes, poderão ser sentidos como um choque tão violento e disruptivo que obrigará ao desligamento automático do sistema energético e ao uso e abuso de manobras compensatórias e defensivas inadequadas, levando a desvios do desenvolvimento graves. 

Outras situações haverá em que os incidentes disruptivos, ainda que não representáveis, poderão levar o indivíduo a desenvolver sintomas psicopatológicos ou a desvios consideráveis do desenvolvimento que não chegam a tornar-se patológicos, por acção da resiliência ou de outros factores auto-reguladores, como, por exemplo, o processo de sublimação. 

Poderíamos comparar esses fenómenos ao impacto de um meteoro que explodisse contra a crosta, abrindo uma ferida dificilmente reparável. Nessa situação de emergência, entraria em acção Tanatos, desligando o sistema e afundando a área danificada, libertando energia não vinculada. 

Se pensarmos, como Freud, que a sublimação, processo ligado directamente à pulsão e ao self idealizado através do ideal do eu, não obriga ao recalcamento nem à dessexualização da pulsão, mas pode religar o sistema, pela criação de um novo objecto de investimento dessexualizado (a obra), compreenderemos como os mecanismos internos (correntes de convecção) podem activar a pulsão de vida para se imbricar novamente com Tanatos, religando a energia livre ao circuito dos objectos. 

Consistente com essa plasticidade defensiva, a ideia de Blatt de que o recurso ao mecanismo de defesa sublimação poderia resultar numa resposta mais ou menos integrada de auto-satisfação (dimensão introjetiva) e aceitação social (dimensão anaclítico), leva-nos a pensar que o acto criativo pode ser visto, tendendo mais para o polo introjectiva, como um movimento de satisfação da pulsão deslocada (não dessexualizado) ao serviço do ideal do eu, ou, tendendo mais para o polo anaclítico, como uma manobra de sedução para conquistar a aprovação social (com dessexualização da pulsão). 

Assim, do meu ponto de vista, não se poderia falar de um só tipo de sublimação, mas de três, à imagem das três con gurações de personalidade propostas, a sublimação de tipo introjectivo, a de tipo anaclítico e a de tipo misto, consoante a predominância da linha de auto-definição, de relacionamento ou a da mistura das duas linhas de desenvolvimento. 

Tal como as transformações da Terra são operadas e co-determinadas pelo encontro entre a dinâmica das suas forças interiores e o sistema solar/ universo, também o desenvolvimento da personalidade é co-determinado pelo encontro entre a pulsão e o objecto, entre a dinâmica das forças internas e o sistema relacional numa procura contínua de equilíbrio indissociável dos polos que se atraem apaixonadamente. 

Nesta novela, muitos estilos e graus de desenvolvimento se podem gerar, desde as patologias mais graves, até às compensações criativas mais belas. Esta visão integrada e suas possibilidades de expansão da compreensão permitirão, assim espero, um aumento da plasticidade terapêutica benéfica para o planeta e para aqueles que, sofrendo, podem continuar a alimentar a esperança de encontrar o sentido do seu caminho na estrada da múltipla circulação afectiva. 

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Title

The Tectonic Model of the Mind; between pulsion and object. 

Abstract 

The distinction between pulsional model and object relation model has always been a central discussion point in the history of psychoanalysis. From this distinction the various authors have positioned with their theories a priori already associated with one of the models. By Tectonic Model the author proposes to look this divergence from a di erent vertex, the integration of those two perspectives. Revisiting Freud, Kohut and Blatt, the Tectonic Model of Mind proposes to integrate the pulsional model while focusing on the energy that generates the development and the whole process of inner transformation of the individual, with the relational model that values the relationship with the signi cant gures as fundamental experiences to promote this transformation, in a developmental perspective. e author argues that individual’s internal dynamics that operate transformation are as important as the relational experiences that determine that transformation. One cannot operate without the other. Each individual, would be represented by the earth’s crust in a continuous dynamic between inner – core and mantle – and outer reality – atmosphere. As the crust is constantly being renewed by the in uence of tectonic cycles, the mind and the human personality through equivalent dynamism, would develop and transform in an expansive movement balancing, sometimes more focused on others, with maximum expression in the mountainous elevations crust, sometimes more narcissistic retreat, in the depressions protected by the ocean.