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Carlos Amaral Dias

 

Carta aberta a Carlos Amaral Dias  

Tive a maior honra em tê-lo como Mestre, supervisor, psicodramatista e analista.

Tive a honra maior de todas: a de tê-lo como Amigo.

Hoje, se lamento a perda de todas estas dimensões e do tanto que tinha para me ensinar, para nos ensinar, choro a perda do amigo.

A minha amizade consigo, Amaral Dias, não foi linear; primeiramente foi fascínio pelo seu modo livre e solto de ser, foi admiração pelo seu saber e capacidade para, juntando galhos, me/nos, oferecer ramos de flores. Era assim que fazia: juntava um pensamento, podia ser da psicanálise, a outro sobre filosofia, a um exemplo pessoal ou da clínica e aí tínhamos um belo ramo.

Que arte, que magia!

Esse foi o tempo do fascínio.

Por vezes, o Carlos era arrogante, já lho disse, mas, um dia, descobri uma fenda em si e daí brotaram dimensões solitárias e infantis que me deram a ver outro lado seu. Tão humano e próximo. Foi aí, há já mais de 20 anos, que o meu grande afecto por si desabrochou.

Este foi o tempo da integração e do afeto.

Por vezes era irritante, cutucava a ferida, apontando a sua perspetiva e interpretando, de modo geral, com clareza e verdade -, provocando dor. Digo isto, mas, com justiça, terei de acrescentar que, se fosse necessário, me sabia conter.

Este foi o tempo do meu crescimento.

Depois veio o tempo da confiança e confiou em mim de uma maneira que eu não sabia fazer. Obrigada por isso.

Fez-me crescer e confiar em mim!

Disse-lhe algumas destas coisas, que pena não lhe ter dito todas. Estou a escrever-lhe e a pensar no tanto que tenho para dizer às pessoas que amo. À sombra da enorme perda que é a sua morte, posso continuar a crescer e a mudar, meu querido Carlos Amaral Dias.

Depois veio o tempo do convite para escrever um livro. Foi um tempo simultaneamente árduo e admirável porque tive a oportunidade de visitar - o Carlos, generosamente, abriu essa porta - dimensões suas tão íntimas e profundas.

Assim surgiu o nosso livro: Vida e Psicodrama - um livro ponte.

Ponte que o Carlos foi, para mim e para tantos: ponte entre a dor e a satisfação de viver; ponte entre a pulsão de morte e a pulsão de vida... E, assim, a frase que lhe veio de repente, tão de repente que até o surpreendeu: "bondade é amar o desconhecido" se faz presente.

Tenho agora nome para este tempo:

Foram tempos de bondade e de criação.

É tão importante quando conseguimos dar um nome ao que sentimos. Aí a nossa humanidade dá um salto.

E, agora, o Carlos acrescentaria, ouço-o, dentro de mim: "estou completamente de acordo, Maria."

Estamos ambos de acordo; mas estou com um problema Carlos Amaral Dias: ainda não consigo nomear tudo o que sinto com a sua partida. Por enquanto, refugio-me na doce memória do nosso último encontro, os seus olhos liquefeitos de afecto e interesse pelo que fora, na véspera, o meu aniversário e pela esperança de encontro, no sábado seguinte, para darmos continuidade ao nosso livro sobre mitos.

Hoje estou consigo não a escrever o livro, mas a ousar escrever-lhe esta carta.

Um dia o Carlos disse-me que eu era corajosa, quero acreditar, por isso, como homenagem a si, ao que nos uniu e à sua bondade, venho dizer-lhe que o manterei sempre na minha mente e no meu coração procurando honrar o que de nobre, livre, bondoso e belo deixou dentro de mim.

Ainda não sei nomear tudo o que sinto, mas uma coisa sei - é gratidão - , por isso, digo-lhe: Muito Obrigada querido Carlos.

O Carlos intitulava-se de carteiro entre os maiores e nós. Não acredito nisso, era, antes, um criador. Um criador bondoso que despertou o que de melhor havia em mim. Mas, respeitando a sua postura de carteiro, acredito que encontrará esta carta. É-lhe dirigida com todo o meu afecto.

Até sempre Carlos Amaral Dias.

Maria Moreira dos Santos

17/12/2019