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2ª edição, revista e actualizada, do livro “Félix Culpa” (edição da Fim de Século)

 
 
A profunda relação entre a culpa e a cultura foi sublinhada por Freud, muito especialmente em O Mal-Estar na Civilização. Neste trabalho, tentei pensar a culpa psicanaliticamente. Ou seja, aplicar a teoria e o modelo psicanalíticos à análise e ao entendimento do que é a culpa, que formas ou conteúdos assume. Por uma necessidade óbvia, houve que circunscrever o estudo a um período limitado no tempo. Segui então no encalço da culpa na literatura; no caso, na literatura grega. A abundância de material documentado e analisado permite o estudo aprofundado da questão. Por outro lado, que melhor lugar para procurar o embrião da culpa, prenúncio de cultura, do que a matriz original da cultura ocidental?
A herança judaico-cristã não pode ser esquecida, naturalmente. Aliás as duas, a helénica e esta última, entrelaçam-se. Há que fazer escolhas, sobretudo num trabalho como este, e foi esta a opção tomada: perseguir na literatura e na filosofia gregas a pegada da culpa. Culpa, esse motivo de regozijo, pela via da redenção, dos pais da Igreja, como dizia Santo Ambrósio, numa referência ao pecado e ao seu redentor, cuja celebração se faz todos os anos na missa do Sábado de Aleluia.
Felix culpa,então? Ou sintoma patológico? Ou condição de civilização?
 
A culpa, e a sua expressão literária, não nascem com o cristianismo. Longe disso, como espero ter ficado demonstrado ao longo deste trabalho, que tentou escavar uma pequena parcela das nossas origens culturais e civilizacionais; sobretudo, tentei mostrar como se passou de um conceito de culpa colectiva e hereditária, em que os filhos respondem pelos crimes dos pais, para um conceito de culpa individual. O self dos Gregos antigos não seria um locus da consciência e da auto-reflexão, tal como as entendemos hoje, mas era certamente um centro de responsabilidade.
A hipótese de trabalho que pretendi desenvolver era a de que a culpa, como ambivalência primordial, faz parte do psiquismo humano. Sempre esteve presente, de forma mais ou menos explícita, mais ou menos consciente, mais ou menos benigna, mais ou menos maligna. Vai assumindo diferentes formas, tão elusiva quanto Helena de Esparta. Às vezes aparece disfarçada de vergonha - um outro afecto, de carácter menos elaborado e mais narcísico. Existe também a "culpa culpada", a que antes de o ser já o era: a do pecado original. E ainda a culpa desavergonhada e exibida do melancólico. A culpa propicia defesas, mais ou menos maníacas, mas sempre rituais apotropaicos, desde os mais antigos até ao constante lavar das mãos do obsessivo-compulsivo.
As manifestações culturais da culpa, no sentido de kulturell, termo tão caro a Freud, são também muito variáveis. Freud fala, em O Mal-Estar…, “da fatal inevitabilidade do sentimento de culpa. Todos estamos fadados a sentirmo-nos culpados, porque o sentimento de culpa é uma expressão do conflito que resulta da ambivalência, da eterna luta entre Eros e o instinto de destruição ou de morte”. E acrescenta que, enquanto houver família, o conflito está condenado a expressar-se através do complexo de Édipo. Como sabemos, Freud acaba por concluir que, quanto mais civilização, mais sentimento de culpa.
O percurso da manifestação da culpa na cultura, seja na religião, no direito, na filosofia, na prosa ou na poesia, é irregular mas acompanha o da civilização. Na verdade, é como se fossem dois caminhos, que tanto avançam lado a lado como se cruzam constantemente. A 1ª parte do livro ocupa-se sobretudo destes temas.
Está agora em voga voltar ao conceito da culpa colectiva (acerca do colonialismo, por exemplo), ao mesmo tempo que se recusa a culpa individual e, com ela, a responsabilidade das nossas escolhas e actos. No entanto, quanto mais forte é a desresponsabilização e a recusa da culpa, maior parece ser a força latente, sempre renovada, do sentimento inconsciente de culpa.
A oportunidade da reflexão a que procedi neste trabalho não me deixa dúvidas. Já quanto ao método utilizado, terá certamente as suas fragilidades; interrogar autores que viveram há séculos atrás é, inegavelmente, tarefa arriscada.
Às vezes, fica-se na dúvida, ao ler os clássicos, sobre o que realmente estamos a ler. É muito fácil projectar naqueles velhos diálogos as nossas angústias, e julgo que muitos assim fizeram ao longo dos séculos. Não me refiro apenas às conhecidas traições das traduções, inevitáveis, e ainda menos às contingências a que foram submetidos ao longo dos tempos manuscritos, papiros, etc… Outrossim, parece-me ser uma qualidade da arte em geral, essa de permitir a identificação do leitor com as cenas, os diálogos, as imagens, os ritmos, os sons. Presta-se, assim, a uma apropriação por cada um de nós, leitores. É isso que faz a sua beleza e o seu perigo.
De entre os modernos classicistas, e outros pensadores (especialmente a partir do século XIX, mas já no tempo de Goethe isto era observável), cada um projecta nos antigos Gregos a sua própria ideologia, frequentemente procurando aval para as suas próprias convicções. A isto, estou em crer que nem Sigmund Freud escapou. É certo que ele nos alerta para o perigo das analogias e para o facto de que “é perigoso, não só com os homens, mas também com os conceitos, arrancá-los da esfera em que se originaram e evoluiram”.
Esse outro grande pensador, Eric Dodds, por sua vez, considera ser plenamente justificado que ponhamos aos grandes autores do passado as questões contemporâneas. Com o risco, no entanto, como ele assinala, de pôr na boca desses ilustres e indefesos mortos coisas que eles nunca disseram. 
 
A 2ª parte do livro ocupa-se da culpa de um ponto de vista clínico. São referidos e comentados os trabalhos dos diversos autores e psicanalistas que sobre ela se debruçaram. A relação entre a culpa e a depressão, assim como a diferença entre culpa e vergonha foram duas questões profundamente pensadas, assim como a relação entre a culpa e esse conceito de Freud, que me é particularmente caro, mas que tem sido distorcido por muitos, o da pulsão de morte.
 
Clara Pracana
 
Psicanalista e membro fundador e titular da AP, a cuja Direção pertence.
Doutorada em Psicanálise.
Professora convidada em diversas instituições de ensino (ISPA, ISMT, ISMAT).
Formadora na AP e supervisora.
Autora de diversos ensaios e mais dois livros, o último em co-autoria com Carlos Amaral Dias.
Presente em várias conferências internacionais, preside desde há anos à International Psychological Applications Conference and Trends.
 

Encomendas para: fds@fimdeseculo.com