Formação em Psicanálise
Os três pilares da formação: privilegiando a evolução interna indispensável a quem pratica a psicanálise e a psicoterapia com fins terapêuticos, a AP considera que é indispensável que a formação assente nas formações teórica e clínica e na psicanálise pessoal, de modo a poder transmitir a cada associado em formação, através dos conhecimentos teóricos e clínicos, um saber-fazer prático e, acima de tudo, um “saber ser”.
É nesta exigência que se inserem os três pilares que devem presidir a qualquer formação psicanalítica, quer ela seja na psicanálise quer na psicoterapia psicanalítica:
- Psicanálise pessoal ( análise didáctica pessoal)
- Formação teórica e técnica
- Supervisão de casos clínicos em seguimento psicanalítico ou psicoterapêutico
Em permanente ligação entre si, eles vão permitir dar um estrutura sólida e coerente à formação:
- A psicanálise pessoal permite uma descoberta sobre o universo psíquico próprio de cada pessoa no contexto da relação com um psicanalista;
- A formação teórica permite aceder ao conhecimento da nosografia psicanalítica, da metapsicologia, da teoria da técnica psicanalítica e da teoria do funcionamento psíquico;
- A supervisão transmite, não apenas uma técnica, mas a “alma da técnica” para além da técnica.
Sendo a psicanálise, simultaneamente, uma teoria sobre o funcionamento psíquico, uma teoria sobre a psicopatologia e um modelo de intervenção terapêutica, a AP tem presente que o processo que permite adquirir a formação que possibilita que o psicanalista ou o psicoterapeuta possa utilizar uma compreensão psicanalítica com os seus pacientes, é um processo de aprendizagem complexo e trabalhoso. Por isso, Freud deu tanta importância, logo que iniciou a construção da teoria psicanalítica, à formação, tendo, nos vários textos que escreveu, entre 1904 e 1910, relevado a técnica psicanalítica, deslocando a tónica da descrição do método e dos fins da psicanálise para a exigência nas qualidades e nas competências que o psicanalista tem de ter para se poder tornar no instrumento adequado do método analítico com as suas indicações precisas.
Uma das razões que torna esta abordagem analítica de tão complexa aquisição, deve-se ao facto de haver um permanente diálogo entre o método, que guia a situação psicanalítica, e o processo psicanalítico, guiado, por sua vez, pela construção teórica. Ou seja, a situação psicanalítica gerada pelo dispositivo próprio da sessão de psicanálise (setting) e pela regra fundamental da psicanálise alicerça o processo psicanalítico que, por sua vez, faz avançar a situação psicanalítica. Mas, cada variação na situação pessoal do paciente, no processo analítico ou no setting, são susceptíveis de fazerem variar a natureza da experiência do inconsciente do paciente, para a qual o terapeuta tem de adequar a sua compreensão psicanalítica. Esta compreensão vai convocar, no terapeuta, um saber fazer e um saber ser que possa responder, permanentemente, à tensão gerada entre a exigência metodológica e a construção da teoria, tensão inerente ao bom exercício da prática psicanalítica e à correcta aplicação da teorização psicanalítica.
Incluindo o “saber ser”, o “saber” e o “saber fazer”, a formação psicanalítica é, assim, um processo de transformação interna apoiado numa teoria e numa técnica.
O programa de formação em psicanálise abrangerá 7 semestres, sendo os 4 primeiros em tronco comum com a formação em psicoterapia psicanalítica.
A formação específica em psicanálise terá como objectivo:
- O estudo e investigação, no plano teórico e clínico, do funcionamento mental e relacional, seu desenvolvimento e perturbações, assim como a prevenção e o tratamento dos atrasos e desvios. A psicanálise como ciência – conhecimento baseado na evidência e na prova –, técnica – o saber fazer – e arte – o poder criar.
- O ensino e a aprendizagem assentes na experiência e indagação. O mestre, eterno aprendiz, como companheiro e animador da pesquisa.
- O estudo dos principais temas da análise clássica e contemporânea:
- Impulso-defesa (Freud, Anna Freud). Libido e agressividade, mecanismos de defesa, conflito, identificação. Perlaboração.
- Relações objectais internas (Klein, Bion). Fantasia inconsciente, ansiedade dominante, rêverie, continente-conteúdo. Transformação.
- Relações objectais internalizadas (Fairbairn, Kohut, Grupo de Boston). Relação intersubjectiva internalizada estruturando o tipo de relação de objecto. Processo de mudança.
- Técnica:
- Setting, transferência, resistência e interpretação
- Contra-transferência
- Relação analítica
- Crescimento mental e expansão criativa
- O fim da análise: um “acabamento aberto”
- Co-construção do presente e do projecto futuro
A AP propõe-se dar uma especial atenção à formação em análise e psicoterapia de crianças e adolescentes, propondo-se dar cursos sobre a técnica e os fenómenos de transferência e contratransferência das psicopatologias próprias da criança e do adolescente.
No final da formação completa e após a sua validação pela Comissão de Ensino, o psicanalista ou o psicoterapeuta psicanalista poderá apresentar a sua candidatura a membro aderente da AP.
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